A Ásia é possivelmente o maior berço de homens e mulheres milagrosos, mas pouco se sabe disso no Ocidente, tendo sempre em mente a própria história ocidental e seus contatos com o sobrenatural como uma única fonte de curiosidade e misticismo.
O Brasil já foi o coração do paranormal, e por incrível que pareça, e por mais que esta situação tenha mudado radicalmente, há poucas décadas atrás, pessoas do mundo inteiro iam ao Brasil para ver sessões de materialização, médiuns incorporados com espíritos que faziam cirurgias sem anestesia nem dor; avaliar diversos instrumentos tidos como mágickos, túmulos milagrosos, locais de avistamentos sobrenaturais etc.

Na Tailândia a situação não é diferente do que foi o Brasil, mas também tem mudado muito. Temos até hoje o sobrenatural bem presente no cotidiano do povo Tailandês, e eles tem, em seu tipo de magia, suas referências de médiuns, milagreiros e pessoas que provaram o “além” na matéria por muito tempo.
Entre monges que caminharam sobre as águas, feiticeiros encantadores de cabeças de cadáveres (as cabeças que falam), gente que entra em óleo fervendo, bilocações, encantamentos de animais, charme irresistível, templos feitos de carne humana que soltam fumaça, entre tantas outras coisas, eu destaco quatro destas figuras como as mais importantes no MEU caminho mágicko no Oriente.

Infelizmente não conheci pessoalmente nenhuma das quatro figuras que apresento aqui. Ajarn Fon faleceu em 1946; Ajarn Wara fez sua passagem em 2005 quando eu ainda ficava excitado com folhetos de propaganda de calcinha (entrava na adolescencia); Ajarn Best faleceu um ano antes de eu vir morar na Ásia (2012), e Phor Sala Tan faleceu dois anos antes da minha iniciação na Magia Tailandesa (2014).
Mestres de meus professores, figuras lendárias cujo trabalho ainda permanece e agora se encontra raro, devem ser lembrados aqui como provas vivas do sobrenatural que foram.
Quatro dos “tigres” da Ásia como eram chamados os antigos magos que tinham poderes de encantamento de animais e pessoas, e de invencibilidade. É um título já extinto, em seu último representante, que não pode passar adiante seus conhecimentos por motivos legais (o contato com animais selvagens agora só é permitido em zoológicos turísticos na Tailândia).
Vamos ao primeiro destes, e possivelmente o mais controverso, mais famoso. O super interessante necromante mulherengo que acabou vivendo como mulher (mesmo casado com mulheres) pela maior parte de sua vida, Phor Sala Tan.
Conheça aqui:
Phor Sala Tan: O Necromante Que Virou Mulher
Nascido no que seria o ano de 1919 do calendário que seguimos no Brasil (totalmente diferente do calendário Tailandês), Phor Sala Tan foi um grande mestre do sistema Lanna de magia tailandesa, conhecido como “o sistema do Norte”.
Por ser o sistema mais famoso no norte, possui influências e mesclas com a cultura chinesa e com sistemas Burmeses (de Burma, atual Myanmar) de feitiçaria.

Phor significa “venerável”, isso porque Phor Sala Tan foi monge (por um curto período de sua juventude).
Sala é como são chamados os mestres feiticeiros em Burma, isso porque ele foi o mestre mais famoso de necromancia da Ásia, tendo iniciado uma grande parte dos principais magos do sudeste asiático nas artes necromânticas desde antes da primeira metade do século passado até poucas semanas antes de falecer, já em 2014.
Fato é que Phor Sala Than já era uma figura controversa desde muito cedo. Quando jovem decidiu ser monge, mas não era nem de longe o típico meditador compassivo. Ele utilizava qualquer desculpa para ficar perto das moças, seja jogando oráculos ou fazendo rituais de limpeza com água sagrada.
Isso porque quando ele via uma mulher que o interessasse ia logo falar com ela, e testava um segredo de magia que aprendera de um monge necromante, adicionando várias de suas próprias intuições que o deixaram famoso.

Vale lembrar que os “cadáveres” na necromancia da Tailandia não eram vilipendiados, mas doados pela própria família para os templos, ou chamados por todo um grupo de pessoas que se achavam assombradas pelo espírito de um corpo sem túmulo enterrado num cemitério.
Phor Sala Than desde muito jovem já tinha seu próprio jeito de fazer o Nam Man Prai, coisa em que foi especializando com o tempo.
Ele misturava este óleo na água para abençoar as moças bonitas durante “bênçãos especiais”, ou tocava nelas com a própria mão após mergulhá-las em puro óleo necromântico.
Não sabemos se era apenas o óleo ou se as moças gostavam dele porque era ousado, mulherengo e mesmo como um monge ficava com elas; o fato é que uma ou outra escapada foram descobertas, e mais do que isso…alguém o acusou de colocar magia negra dentro da água benta, e ele foi expulso do templo.
Ser expulso de um templo na Tailandia poderia, especialmente na época, ser comparado à ser expulso de uma igreja como Padre. Era um escândalo, uma vergonha, um sacrilégio…mas não para ele.
Phor Sala Tan não tinha qualquer vergonha de suas vontades, de seu irremediável “carinho” pelas mulheres que o atraíam, nem muito menos pelo uso do Nam Man Prai. Ele passou a se lançar como “mago” independente, fazedor de óleo necromântico e feiticeiro.
Estudou o sistema Lanna mas principalmente magia negra com todos os mestres que podia na época, e sua receita de Nam Man Prai era única. Ele tinha seus próprios métodos intuídos.
Entrava nos cemitérios de quatro, nu e de madrugada, para retirar o óleo direto dos cadáveres doados ou apontados.
Utilizava vela preta ou branca, tinha seus próprios kata (mantras) e utilizava duas Mit Mor (facas ritualísticas) das quais não direi neste artigo a utilidade, vou poupar você disso.

O óleo mais poderoso era retirado de mulheres que tivessem falecido grávidas, e depois misturado com diversas plantas, terra de cemitério, raspas de ossos e coisas do gênero. Realmente uma mistura sinistra!
Vinha gente de todo canto para aprender necromancia com ele ou adquirir seu óleo “poderoso”, capaz de “encantar” qualquer pessoa de qualquer gênero. Ficou especialmente famoso na Tailândia, Camboja, Laos e Burma.
Seu talismã mais famoso era o 5 Mae, as cinco damas. Talismãs feitos com ossos e restos de cinco mulheres que faleceram grávidas. Os espíritos eram muito fortes. Em cada talismã Phor Sala Tan criava uma espécie de “servidor” ligado ao espírito destas cinco mulheres e empoderado por seus restos.


Na época, um homem podia ter várias esposas na Tailândia (poligamia), então Phor Sala Tan foi casando com diversas mulheres apaixonadas, até chegar ao singelo número de 61 esposas!
Mesmo tendo tantas esposas e sendo um mulherengo inveterado, Phor Sala Tan depois de uma certa idade (não se sabe se foi após os 30 ou os 40 anos), passou a se vestir totalmente de mulher.
Para alguns ele dizia que fazia isso para despistar espíritos que agora o tentavam atacar, para outros era simplesmente um pacto que ele fez com os espíritos de tantas mulheres que “utilizou” para suas inúmeras garrafas de Nam Man Prai e talismãs. Outros ainda acham que era influência dos próprios espíritos.

A casa de Phor Sala Tan era toda feita de madeira de caixão, e até a sua viola que ele tocava com alegria enquanto cantava antigas e alegres canções Thai, foi feita por ele mesmo com madeira necromântica (que tinha tocado ou sustentado pessoas falecidas repentinamente).

É lógico que isso tudo fazia dele uma figura controversa, atacada, mas Phor Sala Tan literalmente não dava a mínima. Vários monges, mestres (ajarns) e feiticeiros da época diziam que Phor Sala Tan viveria muito pouco, pois pegava demais em necromancia, e isso teria um preço.
Alguns falavam isso como uma praga, outros como aviso, o fato é que Phor Sala Tan enterrou todos eles, e ainda sessenta de suas sessenta e uma esposas (quando faleceu só restava uma), pois viveu até os noventa e cinco anos.
Ele teve vários estudantes mas apenas um Luksit (discípulo), que era Ajarn Tay (que mais tarde virou um Kruba, um mestre monge).
Ajarn Tay não tocava em nada quando visitava Phor Sala Tan e evitava ser tocado por ele, pois o viu diversas vezes tocar o Nam Man Prai e depois as pessoas, limpar em sua própria roupa e até comer algo sem qualquer preocupação com isso.
Phor Sala Tan ganhou o respeito de quase todos os magos e feiticeiros sérios de diversas gerações. Ensinou quase todos os necromantes da geração atual (provavelmente a última ou penúltima).
A mão da morte é também a mão da vida. Ele se tornou, já vestido de mulher, a grande “parteira” de Fang, um vilarejo antigo de Chiang Mai na Tailândia. Numa época em que a medicina era rara naqueles tempos, ter uma “parteira” e “curandeira” era essencial.
Quando alguma mulher morria durante o parto, Phor Sala Tan tinha ali, por doação da própria família, uma fonte para fazer seu Nam Man Prai, enquanto encaminhava o espírito ou o colocava em sua “turma” de mulheres “fantasmas”.
Muitas pessoas não podiam pagar pelo parto, mas Phor Sala Tan era uma pessoa muito bondosa, e quase não procurava “lucros”, então fazia mesmo assim. Ele fazia muita coisa de graça, desde partos até ensinar pessoas.
Seus talismãs são eficientes até hoje, seus espíritos ainda respondem e seu Nam Man Prai é quase que um fetiche de qualquer “colecionador” de itens ocultos na Ásia.

As duas garrafinhas da foto acima são de Nam Man Prai, e eu as adquiri há muitos anos. São difíceis de controlar, por isso estão dentro de “panos de buddha”. Só de tocar nelas a cabeça fica tonta. Penso em um dia vender para outra pessoa.
Tenho um Hoon Payon feito à mão por Phor Sala Tan, com diversos materiais (inclusive nam man prai vermelho) e que me acompanha até para dormir, este fica sempre comigo, é um tesouro raro, e como Hoon Payon é algo muito particular não colocarei a foto dele.
Aos cinquenta anos Phor Sala Tan fez algo que jurou nunca mais fazer: se vestiu como homem. Naquela vez ele adoeceu gravemente, e a partir de então repetia que se deixasse de se vestir como mulher adoeceria.
Fato que em 2014 ele repetiu o mesmo feito, não se sabe o motivo. Mesmo tendo voltado a se vestir como uma senhora (com peito e tudo) logo depois, aos 95 anos, seu corpo não resistiu.
Ele deixou uma esposa (as outras todas faleceram antes dele), uma casa feita de madeira de caixão. Uma colher de madeira com forma de mão que utilizava para mexer o nam man prai, suas duas Mit Mor, vários estudantes saudosos e o mundo um pouquinho menos interessante.
A sua casa foi tão mal assombrada após sua morte, que sua viúva, não aguentando viver lá, mandou incinerar (colocar fogo) tudo, TUDO, inclusive o que tinha dentro.
A viola de Phor Sala Tan está com algum de seus estudantes ou filhos (não se sabe quem). As suas duas Mit Mor e a colher gigante em forma de mão foram parar com Ajarn Tay.
A colher foi leiloada, mas o vencedor a devolveu em poucos dias, dizendo que era mal assombrada, que se mexia, fazia barulhos e não dormia desde que a levou para casa. Hoje se encontra dentro de uma imagem de buddha no samnak de Ajarn Tay.
Os restos de Phor Sala Tan foram utilizados (como é de praxe na Tailandia) para fazer diversos talismãs com a foto ou forma dele, e infelizmente até hoje ainda não consegui nenhum verdadeiro (apenas um falso).

Ajarn Fon: O Sedutor Deformado
Fon Deesawang nasceu no ano de 1883 (2624 no calendário Thai) em Ayuthaya na antiga Tailândia. Uma infância pobre e sem qualquer recurso de educação o atingiu. Para piorar, ele teve uma doença rara e seu nariz teve de ser amputado quando ainda tinha oito anos, isso porque sua família não tinha condiçoes de tratá-lo.
Aos dez anos, sua mãe o enviou (como era comum durante séculos no Oriente) para um mosteiro, para ser educado e criado por monges (como monge), já que não tinha condições de criá-lo.
Ajarn Fon era uma criança deformada e analfabeta, e parecia que o destino realmente o queria muito mal, já que tinha dificuldades de aprendizagem e não conseguia aprender a ler (nunca ao longo da vida leu nem escreveu) nada além de seu nome.
Ele, no entanto, tinha um dom de memorização muito forte, e pedia com frequência para que alguém lesse para ele sobre magias, katas (mantras) e rituais no mosteiro, em sua adolescência.
O abade do mosteiro era Luang Phor Krot, que penalizado por ver o jovem Fon ser ridicularizado e temido pela sua aparência, resolveu ensiná-lo Meta Mahanyon (magia de encantamento).
Quando Luang Phor Krot faleceu, Fon decidiu continuar sua prática sozinho nas florestas como um eremita, também muito por causa de seu rosto deformado que causava reações de horror e até de piadas em quem o via.
Para sua surpresa, no entanto, descobriu um pequeno monastério de eremitas no meio da floresta, entrou e conheceu um monge chamado Luang Phor Dee, que era um ser quase que sobrenatural.
Luang Phor Dee tinha dons de flutuação (andava no ar) e bilocação (aparecia em dois lugares ao mesmo tempo) como atestado pelo próprio Ajarn Fon que o viu em meditação em seu quarto, enquanto ao mesmo tempo andava pela floresta, sendo visto pela janela.
A visão de Luang Phor Dee bilocado mudou a vida de Ajarn Fon, e ele passou desde então a se ver também “bilocado” quando em meditação. Ele aprendia tudo por assimilação e não por estudo ou instrução.
Uma vez assim bilocado, ele se viu no meio da floresta e então avistou uma moça muito bonita, um espírito da floresta que dizia viver numa árvore chamada Tong Dart Kian, e que estava em risco, e pediu ajuda ao jovem Fon.

Ajarn Fon não entendeu nada da mensagem até que no exato dia seguinte ele viu uma grande movimentação de homens, o que era muito raro naquelas bandas de mata. Ele correu até eles e descobriu que eles tinham vindo para cortar uma árvore muito grande e bonita que tinham descoberto.
O jovem Fon se atirou aos pés deles pedindo que não cortassem a árvore, mas eles riram. Então ele, lembrando entre lágrimas da magia de encantamento que aprendera com Luang Phor Krot, seu primeiro mestre, recitou os mantras em voz alta, ao que todos se sentiram compelidos a parar.
A árvore não foi cortada, pois as pessoas foram “encantadas” e simplesmente saíram de lá. Em “agradecimento”, o espírito da árvore deu a Fon um livro que não continha nada além de símbolos que ele entendia perfeitamente “fora do corpo”.
Foi a partir de então que sua vida mudou totalmente. Ele agora sabia, “de repente”, a transformar folhas em abelhas (algo que ele fez na frente dos monges), controlar cobras pelo pensamento, hipnotizar pessoas, e diversas outras magias.
Agora poderoso, os traumas do jovem Fon o impeliam, e ele logo percebeu que de nada adiantava saber tantas coisas sobrenaturais e ficar na floresta, então saiu do pequeno monastério florestal e voltou para a cidade, para ser monge no templo Wat Sakiat.
Ali, passou a fazer frequentes demonstrações de poder, sendo a mais famosa quando ele se mutilava com uma faca, e depois se curava imediatamente. Ele também chamava por cobras que o obedeciam, vindo de todos os cantos, totalmente hipnotizadas.
Os monges do templo Wat Sakiat diziam que isso não condizia com a conduta de um monge, ao que Fon decidiu então que não poderia ser monge, que queria viver no mundo e demonstrar o sobrenatural, e desde então virou Ajarn (mestre) Fon.

É claro que não foi só o fato de querer “demonstrar” poderes que o tirou do mosteiro Wat Sakiat. Ajarn Fon queria testar suas capacidades de Maha Saneah (magia de encantamento sexual), e passou a fazer isso com certa frequência.
Ele encantava muitas moças bonitas, e diziam que tinha o dom de seduzir alguém simplesmente olhando fixo nos olhos da pessoa. Ele teve 56 esposas, fora diversas mulheres que apenas tiveram “um caso” com ele.
Ajarn Fon teve uma época, especialmente de seus 20 a 40 anos, em que se ocupou de ser um sedutor, e a força de sua magia não residia em pós (Ya Faet), ceras mágickas (See Pung) ou óleos (Nam Man), mas simplesmente nos seus mantras e força de concentração, além de uma capacidade impressionante de convencer pessoas.
Para ser um estudante de Ajarn Fon, primeiro era preciso provar que confiava na magia que iria aprender. O teste era simplesmente se permitir ser picado por uma cobra selvagem e ser curado por Ajarn Fon, ao vivo. Diziam que não se sentia mais dor na picada e ela sarava em questão de minutos.
É dito também que Ajarn Fon previu a guerra da Indochina, e avisou aos militares tailandeses com três anos de antecedência. O sucesso Tailandês, teria vindo não apenas da preparação, mas de talismãs que os próprios militares pediam para Ajarn Fon fazer.
Como ele não sabia escrever, simplesmente usava uma faca para cortar o céu da boca, e cuspia o próprio sangue em pedaços de pano ou talismãs. É dito que todos os que levaram um talismã assim consagrado, voltaram da guerra em segurança.

Ajarn Fon fez uma passagem tranqula aos 63 anos, deixando um harém de esposas mais jovens do que ele, e um bucha (magia) de utilização do próprio sangue para consagrar talismãs. Até hoje quem pratica este bucha, diz que a ferida na boca sara em poucos minutos com os mantras específicos.
Após sua morte, seus restos mortais (como de qualquer pessoa importante na Tailândia) se transformou em material necromântico valioso e cobiçado.
O pó de seus ossos foi utilizado para fazer talismãs com sua imagem, hoje já esgotados e raros. Alguns outros materiais como cabelos e unhas foram utilizados em talismãs com sua foto.

Eu consegui em 2019 um talismã de Ajarn Fon, feito por seus discípulos com o pó de seus ossos num aniversário de sua passagem, onde foi invocado o espírito do próprio Ajarn Fon para abençoar os talismãs.
Se trata de uma relíquia rara um talismã feito com algum resto de Ajarn Fon, e hoje em dia ainda se pode achar, por preços cada vez mais altos, alguns na Malásia ou Singapura.
Ajarn Wara: O Feiticeiro Diferenciado
Ajarn Wara Prakarn ao ser comparado com Ajarn Fon ou Phor Sala Tan, e principalmente Ajarn best (meu preferido), parece menos interessante biograficamente, mas é provavelmente o criador dos talismãs mais procurados e valorizados por colecionadores e praticantes da Magia Tailandesa.
Ele não encantava cobras, não foi expulso de nenhum mosteiro por ficar seduzindo mulheres mais jovens com magia negra, não entrava dentro caldeirões de óleo fervendo como Ajarn Best…nada disso.
A especialidade de Ajarn Wara era fazer talismãs tão fantásticos que é dito ser impossível carregar algo feito por ele e não perceber resultados muito claros.
A verdade é que Ajarn Wara era um feiticeiro extremamente detalhista e perfeccionista. Nascido em 1952, começou a estudar magia negra já com 14 anos. Não quis ser monge, nunca negou suas características mundanas.

Após atingir a maioridade, morou em Burma (atual Myanmar) por dez anos para aprender também a magia negra burmesa, um tipo de feitiçaria que eu posso afirmar ser o que mais me assustou em minha experiência magística, por resultados sobrenaturais e difíceis de controlar.
Ele herdou de seus mestres a tradição do Ruesi Tigre, chamado de Pujow Saming Prai. Ruesi são as 108 deidades que trouxeram a magia para a terra, diretamente de Shiva, deidade da vida e da morte.

Eu, como herdeiro da mesma tradição (cada tipo de magia Thai tem origem em um Ruesi diferente), tenho imensa simpatia por Ajarn Wara, não só pela força que sinto de seus talismãs, mas pelas inúmeras histórias sobre eles.
A primeira vez que tive contato físico com um de seus talismãs é recente, faz três anos apenas. Um amigo chinês que é intérprete de Thai (língua tailandesa) encontrou alguns de seus talismãs no interior da Tailândia, deu uma gargalhada de alegria e simplesmente disse antes de comprar todos (e revender alguns): “Ha! Arjan Wara…não existe nada mais forte”.
Ajarn Wara nunca quis “industrializar” seus talismãs, negando veementemente o que os magos começavam a fazer já no fim do século passado na Tailândia, de compartilhar com fábricas e empresas a feitura de suas magias para “consagrá-las” depois.
Ajarn Wara fazia cada um de seus talismãs à mão, e isso incluía desde o menor material, não havia nada industrializado ou trazido por outra pessoa. Ele só confiava no próprio perfeccionismo.

Era especialista em fazer quatro tipos de amuletos e uma forma especial de Nam Man Prai, diferente de Phor Sala Tan, então vamos aprender por que ele ficou tão famoso:
– Nam Man Prai: Diferente do óleo de Phor Sala Tan, o óleo necromântico de Ajarn Wara não continha mais ligação com os espíritos dos quais era tirado. Ele encaminhava o espírito e utilizava o óleo como essência para um filtro com a junção de 108 plantas afrodisíacas.
Seu óleo era mais “fácil” de utilizar, manter e “controlar” que o de Phor Sala Tan, não precisava ser cultuado (o de Phor Sala Tan deve ser cultuado antes de usar pois traz fantasmas ligados ao óleo) e tem 100% de aproveitamento para todas as testemunhas que o utilizavam.
Citar os testemunhos de seu nam man prai é importante, mas o que realmente importa é que Ajarn Wara usava o seu óleo e atribuía o fato de ter 32 esposas à ele. Ele era bastante mulherengo também, desde jovem.
Outra coisa interessante era que o Nam Man Prai de Ajarn Wara era realmente “sugado” e evaporava de dentro do frasco ou era “tomado” pelo talismã que banhava.
Hoje ainda é possível encontrar com muita busca, dinheiro e tempo, o Nam Man Prai de Phor Sala Tan, extremamente requisitado por colecionadores, mas o de Ajarn Wara não. Aliás, se alguém fala que tem o óleo dele é imediatamente taxado de charlatão, é algo praticamente extinto hoje em dia, pois todos acreditam que ele “voltava para o astral”.
– Pujow Saming Prai (Ruesi Tigre) para controlar espíritos
Possivelmente a magia mais famosa de Ajarn Wara, pois o Ruesi Tigre é o ancestral que trouxe seu principal tipo de magia (e o meu também).
Talismãs de Pujow Saming Prai modernos são muito populares em toda a Ásia, fáceis de encontrar, mas a forma de fazer, o efeito e o bucha (magia) utilizado são muito diferentes dos “old school”. Os modernos focam mais em popularidade e boa sorte.
Antigamente era um talismã difícil de fazer, poucas pessoas podiam trazer no peito, geralmente mestres necromantes ou pessoas que podiam utilizar Prai (necromancia), e o foco era chamar o espírito do Ruesi Tigre para ajudar a pessoa a controlar os espíritos que teria contato. Pedaços de osso eram essenciais, nam man prai ou madeira de caixão também.
Ajarn Wara fez três modelos famosos deste talismã, na época em que fazê-los era para os necromantes cascudos, e trazê-los no peito era para os iniciados que se garantiam.
Um deste modelos é chamado de “Ruesi Chocolate”, pois Ajarn Wara fez os talismãs na cor branca, mas após a consagração todos foram ficando mais escuros, e hoje em dia todos são marrons.

Outro é um talismã simplíssimo e até feio, só com uma foto de uma estátua na parte da frente, mas atrás, no Muan Sarn (a mistura que traz o fundamento da magia no talismã), trazia diversos pedaços de osso com uma garrafinha pequena do famoso Nam Man Prai do mestre Wara!
O terceiro, e possivelmente o mais espetacular, é talhado à mão em madeira necromântica (usada para espetar e vazar as “sujeiras” dos cadáveres utilizados em necromancia), adicionando um pedaço de osso ou flor nascida num cemitério e embebido no seu famoso Nam Man Prai.

– Pra Pidta (o budha que cobre o rosto)
Outra especialidade de Ajarn Wara era o Puta Pra Pidta. “Puta” (se lê pu-u-tá em Thai) significa Buda, “Pra” significa venerável e “Pidta” (se lê pitá) significa “cobre o rosto”.
Existem dezenas de tipos de talismã na magia thai, alguns são exclusivos para seu tipo pessoal, poucos são universais. Geralmente os que trazem Budhas, especialmente o Budha Shakyamuni (o histórico) ou o famoso Budha de quatro faces, podem ser trazidos por todos.
Exceção é o Pra Pidta pois tem edições necromânticas, e se for assim só pode ser trazido por quem pode tocar Prai. É o caso do famosíssimo Pra Pidta “três bocas” de Ajarn Wara.
A história do Puta Pra Pidta, para resumir, é simples: Era um Budha muito bonito e por isso muito procurado pelas mulheres, era também simpático e atraía riqueza, as pessoas queriam dar coisas valiosas para ele.
Então, cansado de viver num “paraíso” e querendo a iluminação, ele tampou o rosto para não ser visto e pediu para ficar gordo e feio, ao que alguma força universal com senso de humor sarcástico (ou sádico) assim o fez, e ele ficou muito gordo, muito baixo e feioso. As mulheres continuavam a se apaixonar por ele, e as pessoas em geral a serem generosas.
Falaremos mais com detalhes de cada tipo de amuleto da magia tailandesa em artigos futuros (ou vídeos no instagram, segue lá), mas saiba que Pra Pidta é um dos amuletos mais comuns, e que o fato de ser um budha que cobre os olhos faz com que possa ser um budha que “não vê seus erros”, e “não te julga”, por isso ele foi muito popular entre gangues e prostitutas dos anos oitenta em todo o extremo Oriente.
Ajarn Wara fazia, já no fim do século passado e início deste, um Pra Pidta conhecido por “três bocas”, pois utilizava no Muan Sarn os restos mortais de três pessoas (pai, mãe e filho) que faleceram num acidente de carro e foram doados pela família para seu Samnak.
Ajarn encaminhou os espíritos em troca de usar seus pós com lascas de cristais neste talismã que ficou muito famoso por relatos de ter livrado pessoas de problemas e catástrofes ou acidentes.
Ele tem uma Ong Kru (edição especial) que era embebido no óleo de Ajarn Wara, e foi justo a que eu tive a felicidade de encontrar, a ousadia de querer e a irresponsabilidade de comprar (era bem caro) há três anos atrás.

– Mae Bper
Feita da mesma forma que o Pujow Saming Prai talhado na madeira necromântica, geralmente era a escolha das alunas e devotas de Ajarn Wara. A Mae Bper (se lê mei pór), é a representação da força feminina no universo.
Uma mulher de pernas abertas, mostrando a “porta da vida”, Mae Bper significa “dama deusa”.
Os efeitos e o feitio eram os mesmos do Pujow Saming Prai, mas a magia (bucha) era diferente.
Homens podem trazer também, dependendo dos seus compromissos e missões (ou dívidas) para com a Força Feminina, mas geralmente é indicado para mulheres.
– Ma Saep Neng
O talismã que tem uma imagem que não vou publicar aqui, de um cavalo fazendo sexo com um mulher bonita, foi o primeio amuleto famoso de Ajarn Wara em sua juventude.
Era embebido no seu nam man prai, e causou um alvoroço, pois relatavam ter capacidade de fazer uma pessoa feia se tornar atraente. Quase impossível de encontrar hoje em dia.

Ajarn Wara Prakarn ficou famoso mais por seus amuletos e sua obra do que por “causos” de sua vida particular, ele era tímido e quase não falava sobre si. Faleceu em 2005, aos 53 anos, de causas naturais.
Os amuletos dele tem uma energia única, diferentes de todos os outros, e realmente trazem um sentimento do fim dos anos 90. Os mais antigos já são praticamente extintos.
Ajarn Best: O “Santo” Milagroso
Foi difícil (mas essencial) incluir Ajarn Best nesta instrução. Primeiro por eu ter publicado o artigo mais completo sobre ele em qualquer língua aqui, e o único até agora em uma língua ocidental.
Segundo, por ser o meu preferido, e aquele com quem eu tenho mais “comunicação” e uma real “devoção”. Ajarn Best, para mim, é o que chamam de “santo” no ocidente.
Vamos recolocar muitas das informações do artigo sobre ele aqui, em forma resumida, e trazer alguns detalhes novos.

Na foto acima: Ajarn Best após completar o último grau da feitiçaria burmesa e tirar a foto de óculos escuros, pois havia um treinamento absurdo para os olhos. Foi o mais jovem da história a completar, e por isso a aparência de playboy oculta algo que poucos magos orientais conseguiram.
Bess Worapon nasceu em Chiang Mai, minha cidade preferida da Tailândia (a mais sobrenatural). Não se sabe se ele nasceu no que seria, em nosso calendário ocidental, 1984 ou 1990, e é algo que ninguém confirma, dando respostas mistas para isso.
Seu avô era Ajarn Nan Jun, um mestre feiticeiro, e logo desde criança Bess se encantava com os ritos e exercícios de magia e pediu para que o avô o ensinasse a meditar e usar a mente de forma mágicka.
Logo no começo da adolescência entrou para um mosteiro, com o intuito de ser monge por pouco tempo, e o foi até os dezoito anos, quando se tornou um Ajarn (mestre secular, um mago).
Já no mosteiro mostrou uma aptidão que assombrava aos seus mestres, ele tinha uma comunicação com outros mundos que era muito clara, e o “além” o respondia.

Quando deixou de ser monge, Bess Worapon decidiu ser um ajarn, um mago secular. Ele teve dois mestres muito famosos e de extremo valor no sistema de magia do Norte Tailandês, o monge independente Luang Phor Moon e ninguém menos do que Phor Sala Tan.
Foram seus mestres que concordoram entre si que Bess deveria ser chamado de Ajarn Best, pois tudo que ele aprendia com eles, executava “melhor”.
Foram também eles que declararam ser Ajarn Best a encarnação de uma deidade do sistema Lanna de magia, Ajarn Best nunca revelou qual.

Sua especialidade além da magia necromântica era a magia de Kong Grapam, ou invencibilidade, que tornava a pessoa imune a cortes, perfurações e queimaduras, algo no mínimo sobrenatural.
Diferente dos outros mestres que citamos neste artigo, Arjan Best não teve nem sequer uma esposa, e enquanto eu acredito que ele mantinha seus relacionamentos secretos e o mais longe possível de seu trabalho espiritual, alguns acreditam que ele sequer tinha tempo para isso.
Tempo era uma das duas coisas que Ajarn Best temia. Ele dizia ter diversas coisas para fazer num espaço de tempo muito curto, pois viveria pouco por aqui, iria voltar ao seu “lugar” em outro plano.

Em seu curto tempo neste mundo Ajarn Best viajou para Burma e para o Camboja para aprender sistemas diferentes de magia, também para o sul da Tailândia, e teve diversos professores, sempre deixando impressionados os que o ensinavam.
Quando voltou para Chiang Mai abriu seu próprio Samnak (templo pessoal) com as bênçãos de Phor Sala Tan e Luang Phor Moon, e começou a ter seus próprios discípulos.
Ajarn Best era sempre bem humorado, simpático, sereno e elegante, mas assustava seus discípulos, os fazendo mergulhar em óleo ou água fervendo (em ebulição) ou os cortando com facões e espadas. Eles nunca sofriam qualquer dano.

Os talismãs de Ajarn Best costumavam ser comprados antes mesmo de serem terminados, todo mundo queria um. Eram potentes, e o mais famoso era o seu óleo, que não era Nam Man Prai, pois o que ele utilizava mergulhado junto as plantas era o corpo de alguém vivo.

O óleo do corpo de Ajarn Best fervido (que saía tranquilamente da panela sem qualquer ferimento) era disputado, e o pouco que sobrou foi misturado como base para outros óleos de outros mestres.
Entre talismãs necromânticos, rituais de saudação aos budhas, magias de encantamento e uma presença angelical (os tailandeses se referem a Ajarn best como “mestre anjo”), as pessoas se juntavam mesmo para ver suas demonstrações com fogo, facas e óleos.
Acima um video inédito (e único) de Ajarn Best utilizando um facão no pescoço de um devoto durante um ritual aberto ao público. Os rituais eram precedidos de demonstrações, música e oferendas aos budhas e deuses.
Ajarn Best fez dois talismãs considerados “os mais valiosos”, com a foto que tirou de óculos escuros em Burma. Um deles trazia fios de cabelo dele próprio, e o outro trazia pelos de tigre combinados com takruts (pequenos rolos de cobre cravados com símbolos mágickos).
Estes talismãs são muito raros de encontrar, a maioria já se encontra em mal estado, mesmo fazendo apenas 16-17 anos de que foram feitos, sendo os em bom estado ou quase novos valendo o mesmo que um salário de político no Brasil.
Consegui um deles (o com pelos de tigre), e trago sempre comigo, devoto de Ajarn Best que sou; sua presença é algo que supera a sua ausência física, por isso era chamado de “anjo”.
Ajarn Best poderia ter ficado mais famoso, mas rejeitou a fama, a adoração das pessoas, o assédio da mídia (que nunca aceitou em seu samnak), e até mesmo ofertas de políticos e militares da época.
O seu senso de urgência em fazer coisas para a espiritualidade se justificou quando em abril de 2012 reuniu seus discípulos e parentes e anunciou que iria falecer em um mês. Alguns dizem que ele tinha apenas 22 anos.
O pai de Ajarn Best (ainda vivo) disse que não acreditou nessa previsão, não levou a sério, pois o filho era jovem e saudável (nem gripe ele pegava). Aliás, todo mundo fez pouco caso e esqueceu, talvez de propósito, dessa previsão.
Ajarn Best era o anjo que fazia as pessoas se tornarem invencíveis e provar um pouco do sobrenatural, era jovem, saudável e bonito e parecia que tinha errado na profecia, mas em maio do mesmo ano pegou uma carona de seu samnak para a casa de outra pessoa.
O carro sofreu um acidente brutal e todos que estavam dentro morreram na hora, inclusive Ajarn Best. Fazia trinta e um dias de sua previsão de que deixaria este mundo em um mês.
Sou um devoto de Ajarn Best, talvez a minha única devoção fora da minha Rainha e dos guardiões. A presença espiritual dele é única, e eu sinto em mim próprio.
Para mim, Ajarn Best é meu anjo guia no sistema de magia Khmer, que apresento como Tailandês mas é da Tailândia, Camboja, Myanmar, Vietnã e Laos.
Conclusão
Espero que você tenha gostado de conhecer estes quatro magos tailandeses, eles são bastante relevantes na minha história magicka, na história magicka da Ásia e em especial, claro, da magia tailandesa.
Lembre de me seguir no instagram para mais sobre magia asiática, afinal eu já vivo na Ásia a imensa maior parte de minha vida adulta e magicka.
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Nos vemos numa próxima instrução sobre magia tailandesa, budismo esotérico, luciferianismo ou espiritualidade em geral,
Fiat Lux!
